Du bois e a dupla consciência

Teoria

William Edward Burghardt Du Bois (1868-1963),psicólogo e historiador americano, explorou no século XX a teoria da Dupla consciência na raça negra que não nasceu ou vive no continente Africano, neste caso dos Afro-americanos. Segundo esta teoria os afro-americanos tem duas maneiras de se verem. Primeiro veem-se como individuais e segundo como um grupo mas só através dos olhos da sociedade.”Dando lugar a duas almas, dois pensamentos, dois conflitos irreconciliáveis, dois ideais hostis num corpo negro.Por um lado lutando para serem classificados como individuais, com personalidades diferentes, mas os outros como um grupo com desafios sociais iguais.”

O problema segundo Du bois é que os afro-americanos são ao mesmo tempo, negros e americanos, tendo portanto duas culturas em si, a negra e a branca, no entanto a sociedade á volta continua a separar as duas identidades, não compreendendo que as duas culturas ao mesmo tempo que se complementam, são diferentes entre si.

O mesmo acontece com negros por todo o mundo, que não residem no continente Africano, como os negros em Franca, os negros dos PALOP em Portugal e por aí fora.

A minha experiência:

Isto foi sempre uma coisa que me dá sempre uma enorme tristeza falar, porque por mais que eu me considere uma Lisboeta, alfacinha de corpo e alma, o resto do mundo não me considera portuguesa. Ainda existe um enorme preconceito na sociedade sobre o conceito de nacionalidade.

Para muitos infelizmente nacionalidade, é baseado não onde nascemos, crescemos e desenvolvemos a nossa personalidade mas é baseado pela cor da pele e principalmente quantas gerações da tua família nasceram em determinado país. No meu caso como os meus pais são caboverdianos e negros, para muita gente eu não sou considerada portuguesa.

Eu sempre tive esse problema, tanto em Portugal como no Reino Unido.

Em Portugal por mais que eu me sinta em casa em Lisboa,alguns portugueses continuam a ver-me como Caboverdiana, porque é de lá que alguns dos meus antepassados são.

No Reino Unido o caso é pior. Nao me vêem como, portuguesa ou cabo-verdiana , mas veem-me simplesmente como Africana, como se África fosse um país enorme e não um continente.

Tive várias vezes em Lincoln conversas completamente sem sentido e que sempre me deixaram desconfortável. As pessoas mudam, mas a conversa mantem-se igual e começa mais ou menos assim:

–Vens de onde?

-Portugal, de Lisboa

-ohhhh bacano, muito bacano, mas tu não pareces a típica portuguesa

-Nao!!!!???

-Sim nao é essa a ideia que eu tenho dos portugueses. Mas nasceste em Portugal?

-Sim nasci e cresci em Lisboa

-ahhh ok….E os teus pais vem de onde?

-Os meus pais são cabo-verdianos

-ahh vez então tu não és exactamente portuguesa, és africana

-Sou!!???

-Sim porque os negros não vêem da Europa, vem de África por isso tu és africana e não portuguesa

A este ponto não sei se me rio se atiro uma cadeira á cabeça dessa pessoa, mas normalmente depois de um pequeno ataque de riso, tento dizer o mais calmamente possível:

-Eu sou e sempre serei Lisboeta é isso que em parte me define como pessoa, a cultura cabo-verdiana é o que me torna mais especial, e é uma benção para mim fazer parte destes dois mundos e estar exposta ás duas culturas.

praticamente, tive esta conversa com 95% dos ingleses que conheci e com alguns portugueses , mas em Portugal não se fala tanto porque questões de nacionalidade ainda é um assunto tabu e ninguém quer falar do assunto.

Exactamente como a teoria de Du Bois, apesar de me considerar Portuguesa, o resto do mundo ainda me vê como parte de um grupo, a raça negra de África. Não a raça negra que fez parte da construção de vários países, não a raça negra que já vive em certos países por várias gerações. Mas se és negro não pertences a lado nenhum mas se não no continente africano

Estes ideais de nacionalidade são parte ignorância, parte preconceito. Lincoln é um cidade que não tem praticamente minorias étnicas. Continua a ser uma cidade predominantemente branca, talvez por isso seja tão difícil para alguns perceber que a cor da pele não tem lugar no conceito de nacionalidade de um individuo.

Á vezes pergunto-me se vivesse em cidades maiores, como Londres, Birmingham, com uma maior diversidade étnica, se continuava a ter as mesmas conversas sem sentido e as mesmas perguntas.

A teoria de Du Bois também lida não só com o percepção do mundo á nossa volta mas a nossa percepção de nós mesmos. No meu caso eu nunca me senti completamente parte da comunidade cabo-verdiana, nem completamente parte da cultura branca portuguesa. Andei sempre nos dois mundos sem pertencer a nenhum. Os meus gostos pessoais no que toca a música, arte, comida, humor é uma mistura dos dois mundos. Eu entendo os dois mundos e isso é uma das maiores bençoes da minha vida, amo o facto que entendo e faço parte de duas perspectivas de ver o mundo, mas estarei sempre dividida entre os dois mundos. Isso é algo que aprendi a aceitar e a amar.

Para mim nacionalidade não tem nada a ver com a cor da pele ou quantas gerações uma família tem num país. Para mim nacionalidade é nascer, crescer num país, sentir-se em casa independentemente do lugar onde esteja.

Grande parte do mundo ver-me-á sempre como a eterna estrangeira, que não pertence exactamente a país nenhum só por ser negra. Para alguns não sou portuguesa porque os meus pais são caboverdianos e não são caboverdiana porque não nasci em Cabo-verde. Sou simplesmente Africana.

Espero que um dia, as próximas gerações não tem que passar por isto tanto na maneira como o mundo nos vê e como na maneira de sentirmo-nos eternamente entre dois mundos.

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