Por favor não toquem no meu afro e a falta de negros em Lincoln

“Our 11-year-old daughter (…) has a marvellous head of Afro hair that she

refuses to wear out because people comment on it or touch it. Hair is often a problem.

It’s a novelty to white people, when they are unused to seeing black people’s hair. All our girls

have experienced that. All black or mixed-race girls and women will recognise it.

Those black and mixed-race girls being treated like you are some creature of exotic plumage

is not normal or pleasant.”

David Smith, sunday Times magazine, 8 Agosto 2010

Este excerto do Sunday times fez-me sorrir. Um sorriso um bocado agridoce. O excerto foi retirado de um artigo chamada England’s Green and Prejudiced land por David James Smith em que uma família com quatro filhos mulatos, conta as atribuições de viver numa pequena cidade predominantemente com cidadoes da raça branca no Reino Unido.

A pequena cidade de Lewes in South Way, Inglaterra, assemelha-se muito a Lincoln em termos de diversidade cultural, ou melhor, a falta dela. Lincoln é o tipo de cidade em que é raro ver-se um negro. Lembro-me, que quando cheguei aqui em Setembro de 2007, acabadinha de sair pela primeira vez da Cova da Moura, Lisboa, a minha casa, estranhei o facto de não haver muitos negros á minha volta.  Senti-me estranhamente sozinha. Inconfortável.  Aliás fiquei quatro dias a andar pela cidade, sem ver um único negro, muito diferente da minha comunidade. Aos poucos fui vendo um e outro mas nenhum era da cidade de Lincoln, eram todos de grandes cidades como Londres e Birmingham. Estavam em Lincoln só para estudar, nada mais.Só passadas algumas semanas é que fui vendo famílias ás compras ou a passear no parque. Nem imaginem o quão contente fiquei.

O meu primeiro ano foi passado sem incidentes de maior. Mas no meu segundo ano, em que comecei a trabalhar numa loja de roupa e que comecei a crescer o meu afro, é que percebi até que ponto Lincoln não estava habituada a ver negros…

Sempre que tinha o meu afro, sentia que toda a cidade estava a olhar pra mim. E atenção não era só paranóia minha. As crianças apontavam e os pais diziam que era feio apontar, mas também olham para a minha cabeça como se tivesse uma cesta ‘á la Carmen Mirranda’ na cabeça. Entrava na Biblioteca e alguns paravam de olhar para o écran do computador e lá fixavam os olhos no meu cabelo. Na minha Universidade somos só duas com coragem para usar um afro, o resto desfriza, usa trancas, perucas, extensoes, etc..; tudo para evitar a atencao e ás vezes os risos maliciosos.

Entro no trabalho e assim que pico o ponto tinho gerentes, colegas e empregadas de limpeza a pedir-me pra tocar no meu cabelo. As minhas horas de almoço, e ás vezes durante o trabalho,  eram normalmente preenchidas com perguntas como: Quantas vezes por semana lavas o cabeça? Como é que lavas o cabelo? Já alguma vez usaste um pente? Já alguma vez esticaste o cabelo? Quanto tempo demora? POSSO TOCAR? O que é que  fazes de manha para o teu cabelo ficar assim?

Durante os primeiros meses, lá ia respondendo ás perguntas mais estranhas que alguma vez ouvi. Precisei de imensa paciência. Até deixei que alguns tocassem no meu cabelo. Mas aos poucos fui-me sentido inconfortável, outra vez… É que não me deixavam em paz e eu não gosto de estar constantemente a ser objecto de atenção da comunidade geral. Faz-me impressão que as pessoas queiram tocar no meu cabelo, como se fosse um objecto exótico nunca antes visto.Afinal de contas cabelo é cabelo.

No caminho para a casa, estranhos chamavam-me os mais variados nomes como Erykah Badu, Macy Gray, Gollywoog ( este sim com conotações extremamente racistas), e diziam-me todo o tipo de coisas como que tinha perdido o pente ou o flat-iron…especialmente á noite, quando alguns deles já tinham tomado uns copos.

Quando saía com as minhas colegas e amigas, negras ou brancas, todas perguntavam-me o que é que eu iria fazer ao cabelo. Todas ofereceram-se pra me esticar o cabelo antes de uma grande noitada.

Completamente diferente da minha casa, onde ter ou não ter um afro não tem importância nenhuma. É comum andar por Lisboa e ver centenas de mulheres com afros enormes e ninguém parar nem dois segundos para prestar atenção.

Claro que não estou a dizer que as pessoas que queriam tocar no meu afro, colegas de trabalho e amigos, tinham qualquer tipo de racismo subtil, como ao longo desta história o autor vai revelando que ele infelizmente sofreu  e continua a sofrer diariamente com a sua família.David conta que os seus filhos foram todos gozados na escola por causa do cabelo por colegas e até professores. Uma professora chegou mesmo a gozar com o facto do cabelo ter um aspecto frisado, exigindo que uma das raparigas ata-se imidiatamente o cabelo. na pequena comunidade de Lewes, quando se fala se negros, fala-se ‘ daquelas pessoas de cor’ , the coloured, como se ainda estivessem nos anos 50 nos E.U.A., no meio da segregacão e os pouquissimos rapazes negros infelizmente nao recebem muito apoio dos professores já que os professores pensam que eles nao irao vincar nos estudos ou que irão causar problemas na escola.

Mas a minha questão é: porque é que o ‘afro’ continua a ser visto como algo estranho, que deve ser tocado e comentado? Porque é que um afro não é aceite como um estilo de penteado como outro qualquer? Porque é que um afro ainda é visto como um símbolo politico e não como algo sexy? Será que um diria este penteado se irá tornar mainstream, mesmo em cidades pequenas?

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2 Comments Add yours

  1. Maga Rodrigues diz:

    Perfeito artigo. Eu nao tenho cabelo afro, mas tres dos meus irmaos sim e minha mae tem o chamado anelado crespo no Brasil. Quando uso meu cabelo anelado natural dizem que tenho mais cara de mulata e me perguntam porque nao uso liso sempre, ja que fico com cara de índia. E nao tem jeito de convencer meus amigos, especialmente os brasileiros que o que gosto mesmo é do meu cabelo natural e quanta briga tenho para definir meus caixinhos do jeito que gosto. É uma pena. Um dia me disseram que eu nao era negra porque tenho cabelo “bom”, se é que existe algum cabelo ruim. Me dizem que nao sou negra por isso e por minha pele marrom, a típica pele das mulatas brasileiras. Dizem que sou marrom indígena. E pasme, nao apenas meus amigos brancos brasileiros, mas tbm negros e tbm meus amigos europeus. Será que negritude é realmente ter cor “preta”? Se é que preto é cor de alguem. Será que nao posso assumir minhas raízes porque tenho pele morena, nariz fino e cabelo “bom”? Que culpa tenho se meu pai era filho de índia com branco e minha mae é negra? O sim pelo nao eu nasci da barriga de uma negra e essa é tbm minha raiz, e a raiz mais forte. Nao sei se dói mais quando o comentario vem de um negro ou de um branco, porque nao posso nem saber a que “categoria” pertenço, por assim dizer, entende?
    Muito bom artigo, deixem nossos cabelos em paz, deixem nossa raça em paz. Será o nosso poder o que incomoda tanto?
    Abraços.

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    1. Angielopes's weblog diz:

      hahahhaha pois é Maga…É uma confusao 😉

      É pena que ainda haja as chamadas “categorias” e pessoas que pensam que o cabelo se nao é encaracolado é ruím (mau).

      Quem sabe um dia…:D

      Gostar

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